Marlos Nobre acaba de vencer o VI Premio Tomás Luís de Victoria na Espanha, dotado com 60.000 euros.
Nobre foi declarado vencedor por unanimidade, pela primeira vez na história do prêmio, concorrendo com 57 compositores de 17 países.. O júri internacional destacou "a excelente trajetória, transcendência e projeção internacional de sua obra, assim como a originalidade do seu pensamento estético".
A entrega do prêmio ocorrerá em abril 2006 durante um concerto em Madrid de suas obras.
 
 


Minhas convicções musicais

1. A minha busca harmônica baseia-se sempre na íntima convicção consolidada com o tempo, de que é ainda possível descobrir novas possibilidades harmônicas independentes da técnica de 12 sons,da tonalidade e da consonância tal como as vemos tradicionalmente. Acredito que a escala tradicional cromática ainda não foi totalmente explorada e esgotada. É possível ainda descobrir meios diferentes e novos, além dos tradicionais, dos dodecafônicos e dos seriais, de ligar e religar as harmonias entre si. O resultado prático destas minhas buscas e convicções encontram-se principalmente nas minhas obras para orquestra, sobretudo em CONVERGENCIAS, MOSAICO, BIOSFERA, IN MEMORIAM e PASSACAGLIA.

2. Sempre busquei os meios mais simples para expressar minhas idéias e meu pensamento musical, convencido de que não é boa solução a de escrever propositada e deliberadamente uma música difícil, complexa, como um fim em si mesma. Assim como me parece sem sentido o regresso à tonalidade pura e simplesmente. O simples "retôrno ao passado" nunca me seduziu, convencido que sempre estive e estou, de que é necessário sem, analizar e identificar nas obras do passado as forças vitais e ainda hoje válidas para a criação musical em qualquer tempo e em qualquer estilo.

3. Ritmicamente, a regularidade de uma pulsação e os pontos de referência métricos, aliados à mais ampla liberdade rítmica, sempre me pareceram os dois elementos básicos do paradoxo criativo. Aqui, a formação do meu inconciente foi vivamente influenciada pelos ritmos afro-brasileiros da minha cidade natal, Recife, onde subsitem ainda hoje os ritmos fundamentais do Maracatu, Frevo, Caboclinhos, Cirandas e da Macumba.

4. No domínio da forma, busco o equilíbrio entre a unidade e a variedade, deixando que de certa maneira a própria natureza das idéias musicais forgem e provoquem sua própria organização formal. Para mim, FORMA é a necessidade de tornar claro e inteligível, organizado e coerente o pensamento musical. O material sonoro desenvolve-se normalmente na minha mente como um drama, um romance abstrato.

5. Procuro em minhas obras, como fim último, estabelecer o equilíbrio entre a expontaneidade e a lógica consciente, entre a economia e a riqueza do material, nunca deixando que o rigor, a concentração e a concisão prejudiquem a fluência, a expansão e a continuidade do material sonoro. Enfim, procuro a perfeita continuidade e inteligibilidade do discurso e do fluxo sonoro, sem abdicar jamais da audácia e da experimentação inovadora, como impulsos necessários mas não como fins em si mesmos.

6. Para mim, o compositor é uma esponja que absorve, durante as diferentes etapas de sua vida e do seu processo criador, as mais variadas influências. Nenhum compositor repetirá jamais as mesmas experiências auditivas de outros, daí resultando a formação de um estilo pessoal e peculiar em cada verdadeiro criador. Minha música é, assim, o resultado do meu subconciente, que armazenou e absorveu as mais variadas influências, selecionando-as e filtrando-as.

7. A maior lição que tive foi a de compreender finalmente as leis da grande forma dos grandes clássicos dos séc. XVIII e XIX, principalmente Haydn, Beethoven e Brahms. A música serial, apesar de seu riquíssimo aporte, rompeu com esta imensa tradição de maneira radical, ao abolir o princípio básico da repetição, sem realmente trazer à música um substitutivo real. Por essa razão, as obras seriais mais significativas sempre foram aquelas apoiadas em textos, que ajudaram na organização formal das obras. Na música essencialmente pura e abstrata, o serialismo pecou pela falta de organicidade e de coerência na criação da grande forma.

8. No século XX os compositores que mais me influenciaram foram Debussdy, Bartok e Lutoslawski. São estes que foram capazes de inovar a linguagem musical sem romperem necessariamente com a mais elevada tradição.

9. Muitos compositores jovens e não necessariamente jovens de hoje, preocupados de produzirem uma obra atual a todo custo, fixaram-se exclusivamente em problemas técnicos que tolheram sua imaginação criadora. Minha música vai buscar sua inspiração e impulso na fonte do meu subconciente, através de alusões, citações, impressões do passado e do presente que me seduziram ao longo do tempo e que de maneira quase sonambulística afloram ao meu conciente e me incitam a criar.

10. Sou um inventor de música, movido pelo interesse e por um irresistível impulso interior de criar minha própria linguagem, síntese de minhas experiências auditivas e intelectuais e organizadas por um conceito composicional o mais rigoroso possível. Quanto à minha linguagem, prefiro-a, se for o caso, que seja impura mas viva do que absolutamente pura e morta. Quero tornar vivas minhas visões, meus sonhos e mesmos meus pesadelos, tornando-os compreensíveis se eu mesmo acreditar que valem a pena de serem expressos e possuírem energia e emoção para tornarem melhor a vida de quem os apreenderem. Minha estética portanto seria a de comunicar esta energia.

Rio de Janeiro - Brasil - 2005